Pages

Followers

About Me

sexta-feira, junho 30, 2006

Só uma palavra

Ando a namorar as poças.
Arrumo os vidros de remédio
e engulo as mesmas drogas
lentamente.
Só uma palavra
é o que eu espero.
Mas você sorri, dança pela chuva,
desatina,
xinga filho-da-puta,
assobia e me deixa.


E metálico

Cascalhos singrados pelo aço.
Tubos ferrugem.

É o tempo, é o tempo
frio
e metálico.
Cigarros em maço

Paredes descascadas,
olhos vermelhos,
cigarros em maço.
Dança esquiva,
quase luta,
no escadaria
mal iluminada.
Uma cortina de poliéster grená,
já a muito desbotada,
mal cobre a janela.
Sapatos, terno
e gravata.
Seu jeans custou muito caro
mas valeu a pena.
As veias saltam na madrugada,
na Via Ápia,
nos quartos alugados,
cheirando a mofo
e Pinho Sol.
As bofetadas espalham-se
entre humilhações clichês.
Cabelos ralos,
máquina 1,
tatuagens e bomba.
Olhos vermelhos,
cigarros em maço
e depois.

Saltos Rachados

Obtuário extenso,
seu nome perdido.
Coração fraco, consumido pelas seringas.
Roupas usadas,
meias-calças
rasgadas
e o lixo amontoado pelos cantos.
A tv sempre pifada.
Desfilava pelos corredores,
pensando em Mariah,
Whitney e Madonna.
Saltos rachados,
calibre 42.
Cheiro de comida queimanda
e gordura espalhada pelos azulejos.
Geladeira sempre aberta.
Sobras em lata.
Suor forte no casaco pink
desbotado
pelas horas de pista
na Glória.

Estourava a noite,
liquidando o amor
na morte à pedradas.
O quarto

Quando o amor
entardece
e a vida
passa
feito cruz,
as luzes se apagam
e o dia se apodera
do nosso quarto,
em silêncio.
ne me quitte pas II
A solidão faz filosofia, cata erros, saqueia as dores e canta, já bêbada, "ne me quitte pas", berrada, deitada sobre a mesa a derramar bebida em seu homem.

Fio de Voz

E o seu adeus
a devorar
tudo ao redor.
As lágrimas
riscam de raiva
e de remorso
a minha face,
na luz refletida,
no fio de voz
que rouco escorre
e cai,
desaparece,
na fome
do carnaval.

Folhetim,
eu penso,
mais um folhetim.

Adeus, Clarice

O Marlboro
ilumina a sala na penumbra.
A barba por fazer
esconde um rosto magro
sob as almofadas.
A poeira flutua
pelo ar,
sozinha,
malsã.
Da cama vazia,
uma voz áspera
ecoa pelo seu dorso,
como um alarme,
obrigando-o a desaparecer
de sua vida,
Agora.
Automat

Pela vidraça,
Helena respirou o café amargo,
enlaçando o ar empesteado
de cigarro.
Alguns passos
esbaforidos
alinhavavam a calçada
ao seu redor.
Sua vida indo
e vindo
pela noite à dentro.
A cidade às escuras,
a insônia.
Trens calados,
farmácias abertas.
Helena fugindo,
lerda,
sozinha,
nua para o mundo,
no mais profundo breu.

segunda-feira, junho 26, 2006

Resolvi tornar público (caso alguém venha a ler este blog) um bando de poeminhas pretenciosos. Eles são bem velhos, alguns já devem estar completando 10 anos. Eu sempre os guardei, ora com carinho, ora por insegurança total de minha parte. Já não mais sabendo o que poderia fazer com os pobrezinhos, resolvi colocá-los neste espaço, já que até musicá-los eu já tentei (o que ocasionou a montagem de uma também pretenciosa banda de trip hop que se limitou a um único ensaio nos idos anos 90). Bem, chegou a hora de colocar o meu bloco na rua e expor minhas tripinhas para alegria e o deleite do "grande público". Afinal, o que mais esperar de um nerd suburbano que, aos 10 dez anos de idade, cantava aos berros o repertório de Dalva de Oliveira enquanto ajudava sua avó a faxinar a casa?! Ou que acordava as 5 da manhã aos domingos para ler o catálogo telefônico em busca de celebridades e amigos improváveis? Decididamente a tragicomédia está em minhas veias. Oh, yeah, baby!