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domingo, julho 02, 2006


Diante das salinas,
a tristeza explode
na derradeira
batalha
contra o deus
mudo e profundo,
submerso nas dunas
dos seus olhos
órfãos.

Último adeus V

Três da madrugada.
Eu te encontro
bêbado, feliz,
a vazar palavras
que pairam sobre este casarão.
Três da madrugada,
você apanha e acende um cigarro
com alegre cinismo.
A garganta queimada,
a fumaça e os olhos turvos.
Canalhices.
Ouço
"and so all else above,
I'm watting
for the man I love".
Você já amou
errado,
cara.

Três da madrugada,
rezo entre tuas pernas.
Teu cheiro é violento
e de repentre,
penso
que te amo.
Do amor

Farpas escavadas
por lâminas
doces
que logo depois,
segundos depois,
amargam
avalanches de raiva.
Doce profundo,
azedado,
fadado
a ruir.



Um assalto que eu gostaria que tivesse virado estupro

Saio seco,
a boate atrás.
Não sei as horas.
Não me importa
a porra das horas.
Não vou para casa
só!
Roleta-russa.
Corrida de obstáculos.
Mendigos,
meninos de rua,
michês de quinta-categoria
com aliança de noivado,
sotaque carregado.
Um moleque cobra cinco reais pelo boquete.
Primeiro um banho, neném...
Carros espiam devagar,
bem devagar,
procurando hora aqui,
hora ali,
o par perfeito da próxima meia-hora.
A noite não é para qualquer um,
meu irmão.
Um assalto rápido
e lá se foi o meu dinheiro,
fico de pau na mão.
Reclamo com a platéia:
Não se fazem mais
filhos-da-puta como antigamente.
Só grana,
só grana e nem uma
foda.
Sova, sangue ou porra.
Meu cu querendo ser arregaçado,
pedindo cacete,
e os meninos só queriam
o meu dinheiro.
Bosta, hoje eu quero ser
Jean Genet.

La Symphonie fantastique II

Sem amor,
sem Maria.
E eu saberei, pelos recifes,
de sua espera.
Tal Penélope
tecendo a
sina
das pedras.
Na reza
da volta,
da volta,
da volta...
Mas nada,
lenda sem volta.
História sem volta.
Eu não lhe trairei
nos abraços das sereias,
apenas
deixarei
meu barco
fluir,
sozinho,
distante
do seu amor.
E você, perplexa,
irá mirar
o horizonte,
lamuriando
e se perguntando,
onde?
O menino de olhos cegos
ameaça um céu sem estrelas
acalentando o seu fim.
Nem Deus

Colchão velho
sem lençol.
As janelas
sem vidro
cobrem-se de camisas e vestidos.
Pelas escadas,
Davi carrega
suas tralhas.
Sono de rua.
Rosto
de esmalte, cola,
talvez verniz.

E Deus?
Nem Deus,
nem Deus lhe vai ajudar.

A Lua em escorpião

Lixo nas calçadas.
Surra
de merda, papelão
e plástico.
Letreiros de néon
equilibram-se nos motéis
de beira de estrada.
Prédios velhos, cafonas,
esganiçados
pela Via Dutra.
A Lua em escorpião.
Cerveja sobre o balcão ao lado,
gargantas inflamadas,
conversa de bêbados,
cheiro de vômito e solidão.

Ela se matou
após dormir
na rodoviária
susurrando
um nome
a muito esquecido.
Violet Blue II

Noite em nós de chuva,
lágrimas que lixam o céu.
O meu hálito viciado em tua língua
se exaspera
à procura
de seu calor, suor,
curvas, ombros,
lençol.
Antídoto
à base de fel.

Rezo na tua ausência.

Velo,
velo pela noite a dentro.
Velo tal qual carpideira
cujos olhos envolvem
desfiladeiros
soturnos.

Velo nas horas,
nos dias,
nas semanas que se amontoam,
mofam
e me asfixiam.
Velo.
Velo,
mesmo na certeza,
amor,
de que o corpo
morto
é meu.
Apenas meu.

La symphonie fantastique

Luiza murmura paixões
e lamentos
na vontade
de,
tal sereia,
trazê-lo de volta.
De volta,
de volta,
de volta...
Volta.
Retrato

Tosse seca,
mãos calejadas,
unhas de asa de barata
e cola,
meu corpo dói...
Até meus músculos já se cansaram
de mim,
do monte de papéis
amassados,
da argila quase líquida,
do meu reflexo no espelho
quebrado.
Um retrato sem moldura,
podre de ferrugem
e drama.
Free Jazz

Miles lanha
o ar,
perturbando a fuligem
que espia
os arranha-céus.
Noite
e dia.
Os tons
ancoram,
a poesia
desaba.
Resta, apenas,
o silêncio de um copo vazio
à procura
desesperada
da manhã que não vem.
Halls & Prozac

Bafo forte,
calos queimam em meus
pés.
Brilha em seus lábios
um halls manchado pelo batom.
Balas e prozac viraram rotina
em nossa vida, enforcada
em algum quarto
desta cidade
que nos fareja.

Fracasso II

Mãos incompetentes,
duras e perdidas
que atiram à esmo
em um ritmo torto.
A melodia cai.
Pela voz
desisto.
Não preciso levantar,
enamoro a derrota,
vou ao fundo,
abraçando o desafino
no samba-canção manco,
nas vaias
atrás de vaias,
com os olhos bem abertos
para assistir o meu fracasso.
Fracasso, fracasso,
só fracasso
afinal.