Diante das salinas, a tristeza explode na derradeira batalha contra o deus mudo e profundo, submerso nas dunas dos seus olhos órfãos.
Último adeus V
Três da madrugada. Eu te encontro bêbado, feliz, a vazar palavras que pairam sobre este casarão. Três da madrugada, você apanha e acende um cigarro com alegre cinismo. A garganta queimada, a fumaça e os olhos turvos. Canalhices. Ouço "and so all else above, I'm watting for the man I love". Você já amou errado, cara.
Três da madrugada, rezo entre tuas pernas. Teu cheiro é violento e de repentre, penso que te amo.
Do amor
Farpas escavadas por lâminas doces que logo depois, segundos depois, amargam avalanches de raiva. Doce profundo, azedado, fadado a ruir.
Um assalto que eu gostaria que tivesse virado estupro
Saio seco, a boate atrás. Não sei as horas. Não me importa a porra das horas. Não vou para casa só! Roleta-russa. Corrida de obstáculos. Mendigos, meninos de rua, michês de quinta-categoria com aliança de noivado, sotaque carregado. Um moleque cobra cinco reais pelo boquete. Primeiro um banho, neném... Carros espiam devagar, bem devagar, procurando hora aqui, hora ali, o par perfeito da próxima meia-hora. A noite não é para qualquer um, meu irmão. Um assalto rápido e lá se foi o meu dinheiro, fico de pau na mão. Reclamo com a platéia: Não se fazem mais filhos-da-puta como antigamente. Só grana, só grana e nem uma foda. Sova, sangue ou porra. Meu cu querendo ser arregaçado, pedindo cacete, e os meninos só queriam o meu dinheiro. Bosta, hoje eu quero ser Jean Genet.
La Symphonie fantastique II
Sem amor, sem Maria. E eu saberei, pelos recifes, de sua espera. Tal Penélope tecendo a sina das pedras. Na reza da volta, da volta, da volta... Mas nada, lenda sem volta. História sem volta. Eu não lhe trairei nos abraços das sereias, apenas deixarei meu barco fluir, sozinho, distante do seu amor. E você, perplexa, irá mirar o horizonte, lamuriando e se perguntando, onde?
O menino de olhos cegos ameaça um céu sem estrelas acalentando o seu fim.
Nem Deus
Colchão velho sem lençol. As janelas sem vidro cobrem-se de camisas e vestidos. Pelas escadas, Davi carrega suas tralhas. Sono de rua. Rosto de esmalte, cola, talvez verniz.
E Deus? Nem Deus, nem Deus lhe vai ajudar.
A Lua em escorpião
Lixo nas calçadas. Surra de merda, papelão e plástico. Letreiros de néon equilibram-se nos motéis de beira de estrada. Prédios velhos, cafonas, esganiçados pela Via Dutra. A Lua em escorpião. Cerveja sobre o balcão ao lado, gargantas inflamadas, conversa de bêbados, cheiro de vômito e solidão.
Ela se matou após dormir na rodoviária susurrando um nome a muito esquecido.
Violet Blue II
Noite em nós de chuva, lágrimas que lixam o céu. O meu hálito viciado em tua língua se exaspera à procura de seu calor, suor, curvas, ombros, lençol. Antídoto à base de fel.
Rezo na tua ausência.
Velo, velo pela noite a dentro. Velo tal qual carpideira cujos olhos envolvem desfiladeiros soturnos.
Velo nas horas, nos dias, nas semanas que se amontoam, mofam e me asfixiam. Velo. Velo, mesmo na certeza, amor, de que o corpo morto é meu. Apenas meu.
La symphonie fantastique
Luiza murmura paixões e lamentos na vontade de, tal sereia, trazê-lo de volta. De volta, de volta, de volta... Volta.
Retrato
Tosse seca, mãos calejadas, unhas de asa de barata e cola, meu corpo dói... Até meus músculos já se cansaram de mim, do monte de papéis amassados, da argila quase líquida, do meu reflexo no espelho quebrado. Um retrato sem moldura, podre de ferrugem e drama.
Free Jazz
Miles lanha o ar, perturbando a fuligem que espia os arranha-céus. Noite e dia. Os tons ancoram, a poesia desaba. Resta, apenas, o silêncio de um copo vazio à procura desesperada da manhã que não vem.
Halls & Prozac
Bafo forte, calos queimam em meus pés. Brilha em seus lábios um halls manchado pelo batom. Balas e prozac viraram rotina em nossa vida, enforcada em algum quarto desta cidade que nos fareja.
Fracasso II
Mãos incompetentes, duras e perdidas que atiram à esmo em um ritmo torto. A melodia cai. Pela voz desisto. Não preciso levantar, enamoro a derrota, vou ao fundo, abraçando o desafino no samba-canção manco, nas vaias atrás de vaias, com os olhos bem abertos para assistir o meu fracasso. Fracasso, fracasso, só fracasso afinal.