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domingo, dezembro 30, 2007

Av. Mem de Sá, 72 loja B




E o deus veio,
torto, de riso cínico,
Olheiras de galã de filme mudo.
Entrou num botequim da Lapa,
de preto, piercings, tatooado e atrasado.
Afinal, deuses sempre se atrasam.
A conversa, entremeada de cervejas, mais lembrava uma batalha.
Escudos e lanças, Esparta e Atenas.
Um prazer sádico,
Perverso.
O que mais se pode esperar de um deus criado por sátiros bêbados?
Um deus pra lá de doido,
Amacumbado,
vagando pelo mundo,
sem se dar conta de seus próprios segredos.
Assim reza a lenda.
O bode e a lebre.
Façamos um brinde
em copos de geléia.
O álcool na cabeça,
a Praça Tiradentes
à frente.
Façamos um brinde
em copos de geléia.
Lavradio, Durex,
Groselha e maracujá.
Absolut, velvet e o primeiro beijo.
O segundo, o terceiro, o quarto.
O deus nu, de olhos baixos, de alma rasgada
E meus olhos a brilharem.
Talvez tivesse me enganado,
talvez o olhar do fiel seja mais divino do que o do próprio deus.
O olhar do devoto que iluminou, que encheu o aposento até a chegada do sono.
Pois um deus dorme.
Não seus fiéis.
Nenhum mortal deveria ver um deus nu dormir.
As entranhas se contorcem, esgarçadas,
E o desejo se torna tão concreto quanto a cama, o colchão,
a chave, a porta e a despedida.
Façamos um brinde
em copos de geléia.
Façamos um brinde
em copos de geléia.
Façamos um brinde.

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